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Discurso
pronunciada no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, no dia 25
de Janeiro de 2006, por ocasião da entrega do Colar do Centenário ao Dr.
Antonio Ermírio de Moraes.
Amo as reminiscências da infância, a casa na Av. Brigadeiro Luiz Antonio, esquina da Alameda Santos, onde morei, a Igreja Imaculada Conceição, o Parque Siqueira Campos, com os bichos-preguiça, pendurados nas árvores, observando as crianças brincar, o Clube Paulistano, o Trianon, o carnaval de rua, a av. Paulista, o prédio do Colégio Dès Oiseaux, onde estudei durante os mais lentos nove anos da minha vida.
Amo os prédios de Ramos de Azevedo, as casas portuguesas de Ricardo Severo, todos os parques por onde passeei com meus pais, amo São Paulo e amo esta tarde Paulista, quando, juntos, recordamos a vocação maior desta cidade. E há razões sobejas para esse amor que é de todos nós, e que aqui nos mantêm reunidos.
Ao vencer o alcantilado da cordilheira e estender o olhar de conquistador pela vastidão do planalto piratiningano, o primeiro europeu a chegar, buscou um ponto de referência que o orientasse e fortalecesse no cenário amplo da vastidão selvagem. Fixou o olhar em uma poética elevação que, entre dois cursos de água menores e um bem maior, atraía a atenção dos forasteiros e perguntou ao companheiro indígena: - como se chama aquele morro ? – Inhapuambuçu, respondeu o nativo. O europeu traduziu: “morro que se vê à distância”, Inhapuambuçu. Súbito, os dois foram cercados por índios guerreiros, que lhes perguntaram porque se encontravam ali. Inhapuambuçu, essa região paradisíaca, que já surpreendera o guia indígena e surpreendeu o viajante europeu, era Piratininga, a aldeia Tupiniquin de Tibiriçá, olho-da-terra.
Ali moravam os primitivos paulistas, sob o comando do grande e poderoso chefe da nação, tendo o rio Tietê como limite do domínio Guainá. Em leve declive para a margem do rio, sempre coberta de vegetação campesina, irrigada por todos os lados por uma infinidade de regatos nascidos de inúmeras lagoas e inundada periodicamente pelo rio que lhe corria aos pés, existia uma região privilegiada, um Eldorado, a tão procurada Piratininga dos nossos maiores. Rodeadas por férteis campos, as lagoas povoavam-se de garças, patos selvagens, pacas e capivaras. Foi isso que atraiu os índios Guaianá, os primeiros habitantes da aldeia Tupiniquim.
Tranqüilos com a resposta, os índios sentinelas abriram a grande porta e permitiram que os viajantes chegassem à taba do Morubixaba Tybyressá e de suas filhas Potira, Mboy-sy, Terebê. E foi assim que João Ramalho, o primeiro europeu, conheceu a índia Bartira.
Como ele, outros passaram a se deslocar “serra acima-serra abaixo”, à procura do planalto “dez a doze léguas pelo sertão e terra a dentro”, já com o intuito de se fixarem no povoado.
Foi quando chegou Maria da Silva Gonçalves, casada com o meirinho da Vila de São Vicente, a primeira mulher européia a desembarcar na Capitania, em 1536, conforme registra Frei Gaspar de Madre de Deus, e dona Ana Pimentel, a famosa mulher de Martim Afonso de Souza, a primeira governadora do Brasil, e que por procuração passou a administrar a capitania. Contrariando as ordens do marido ausente, Ana Pimentel autorizou o acesso dos colonos ao planalto, intensificando assim o tráfego serra abaixo - serra acima. Entre os pioneiros, acompanhados por seus criados de serviço, chegam a São Vicente os Leme, uma família de bem sucedidos empresários açucareiros, fidalgos provenientes da Ilha da Madeira, que administraram de forma exemplar o famoso Engenho São Jorge dos Erasmos.
Mas como a fortuna que vem da agricultura e da pecuária é lenta e difícil, a jovem filha dessa família madeirense, Leonor Leme, casada com Brás Esteves, já com outras idéias na cabeça, lá se foi pela serra acima, transportada em rede por índios carregadores que percorriam os peabiru entre o litoral e o planalto, os caminhos de Pay Sumé. Leonor Leme foi bisavó de Fernão Dias Pais, o caçador de Esmeraldas, e deu origem a uma das mais importantes famílias quinhentistas da história paulista, cujo desempenho foi preponderante na primeira fase de São Paulo colonial. E chegaram depois os jesuítas com o Padre Manuel da Nóbrega, acompanhado pelo jovem Anchieta, fundador espiritual desta cidade.
Vencida a escarpa da serra, obstáculo intransponível para gente de menor fibra, garantida a duras penas a amizade com o gentio, cordialidade impensável em outras raças que não a portuguesa, os primeiros habitantes lusos de Piratininga passaram a dedicar-se à conquista do sertão desconhecido: Tietê abaixo, trilhando as ramificações do Peabiru em todas as direções da rosa dos ventos, mas, sobretudo em direção ao sul e ao oeste, onde se encontravam dois alvos principais, espanhóis e ingleses.
O acidente geográfico, a colina e seus rios, traçara as coordenadas da conquista, pois o Inhapuambuçu era o nome tupi do Pátio do Colégio, coração histórico, estratégico, sentimental e espiritual de São Paulo, cujo aniversário de fundação comemoramos hoje.
Ao longo do período colonial, esta cidade era das mais tristes, pequenas e pobres do Brasil, porque foi destino enviar seus filhos para estender limites, fundar povoados, trazer à luz riquezas do solo, garantir a posse lusitana, às vezes com sete anos de sertão, e com sonhos, imprevistos, martírios, mortes, persistência, espírito empreendedor, índole aventureira de quem, serra abaixo e serra acima, conquista espaço na História de uma nação.
Em três séculos de Bandeirismo, por força de penosa luta, acrescentaram os paulistas à soberania portuguesa na América Meridional todo o sul do país, e Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, deslocando habilmente o meridiano de Tordesilhas, conquista essa ratificada em 1750 pelo Tratado de Madri, obra insuperável dos paulistas.
São Paulo tem honrado essa predestinação que nos primeiros tempos foi a de atrair como um imã a população dispersa pelos campos de Piratininga, constituída por europeus, índios e mamelucos, e organizá-la para conquistar e apontar caminhos, transformando forasteiros em moradores e povoadores.
Não há palmo no chão, no território nacional, que o paulista não tenha percorrido e sido muitas vezes sepultado. No Amazonas, em Colônia do Sacramento, nos contrafortes andinos e campos de Chachapoias, nos chacos guaranis, nas colinas ásperas de Canudos, na longa retirada do Cabo dos Touros, nas trincheiras de 1932, nos campos conflagrados da Itália na Segunda Grande Guerra.
A força e a coragem de São Paulo são a fonte de inspiração do nosso Instituto: as dificuldades, barreiras e incompreensões são estimulo para que nos lancemos a novos desafios. No momento em que outros se abalariam diante das circunstâncias que o Instituto tem enfrentado, com a força de um Convênio estamos dando início a uma série de Cursos sobre São Paulo na História do Brasil, abrindo nossas portas, a grande porta, como fizeram os guerreiros de Inhapuambuçu, para uma atuação dinâmica e mais próxima da população. Temos como bandeira a introdução da História e da Geografia de São Paulo na grade curricular de nossos alunos do ensino fundamental e médio.
A História e a Geografia começam nas casas onde nascemos e no convívio com as nossas famílias e se desenvolvem nas escolas, na comunidade e nas entidades. Por isso acreditamos que só a valorização da nossa cultura poderá reforçar a crença no futuro do Brasil, o amor ao país, ao estado e à cidade, local por excelência onde se constrói a cidadania e se educa a gente para uma vida cívica.
Foi essa convicção que transformou a aldeia de Tibiriçá, Inhapuambuçu, hoje denominada de Pátio do Colégio, numa urbe imensa, que hoje se chama São Paulo.
Inicia-se aqui nossa homenagem à data magna de São Paulo.
Pro Brasília fiant eximia, essa é certamente nossa força maior.
Non ducor, duco.
Amém. |
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